Google+ Badge

COMPARTILHE

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

EM QUE MUNDO VIVEMOS?

Gerson N. L. Schulz




Você já se perguntou em que mundo vive? Já se perguntou em que período histórico estamos? Já se perguntou por que atualmente é possível guerras de um grupo contra um Estado e não apenas entre Estados? Já se perguntou por que é possível a globalização?

Uma resposta - talvez - culturalmente satisfatória seja que estamos na Pós-modernidade. A pós-modernidade é um período histórico em discussão que nega o projeto iluminista de crença cega na ciência, no Estado, na sociedade industrial-militar burguesa, na luta entre blocos ideológicos (capitalismo, socialismo), na luta entre classes sociais e etc. Ouso dizer que "o projeto pós-moderno é não ter projeto".



Para Tomaz Tadeu da Silva em Teoria do Currículo (2005), os pós-modernos não acreditam na efetividade da ideia moderna de liberdade, nem no capitalismo e nem no socialismo. Não crê que o Estado racional seja capaz de criar e defender leis justas, e garantir a igualdade entre todos. Para este autor, na sua ânsia de ordem e controle, a perspectiva social moderna busca elaborar teorias e explicações que sejam universais, que reúnam num único sistema a compreensão total do funcionamento do universo e da sociedade. Para os pós-modernos o pensamento moderno é particularmente adepto das metanarrativas (positivismo, socialismo, estruturalismo), que são a expressão máxima da vontade de domínio e controle.


Implosão do Pruitt-Igoe, de St Louis, em 1972.
Conjunto de edifícios altamente racional e funcional
mas não estético para os padrões pós-modernos
Na prática, os pós-modernos denunciam que o modelo iluminista que desejava um mundo altamente cientificizado, onde até a família deveria ser exemplar, formada por marido, esposa e filhos (onde a mulher deveria ser 'virgem' para garantir a legitimidade da prole). Onde o Estado era "justo" porque permitia aos cidadãos partirem do "ponto zero" (liberalismo econômico idealista) e, por sua própria competência (meritocracia), conquistarem um lugar ao sol, restando aos "incompetentes" a pobreza e a exclusão. Onde a burocracia é garantia de eficiência e controle sobre tudo e todos. Onde a ciência é redentora, acarretando benefícios à saúde, economia e etc., faliu.


Não se é livre, como pensavam os modernos. Marx, Nietzsche, Freud, Darwin mostram que o homem está atrelado a uma estrutura material que determina o pensar; que a religião cristã é apenas crença ideológica que tem fundamento em si mesma, portanto, não tendo fundamento algum; que o homem não é anjo caído mas um primata evoluído e que não decide tudo racionalmente porque há dentro dele uma parte irracional (inconsciente) que tem grande poder sobre as decisões.


Nietzsche: crítico ferrenho da modernidade.
A pós-modernidade não apenas tolera mas privilegia o hibridismo de culturas, estilos e modos de vida. Tolera outras formas de sexualidade. A "família tradicional" convive com a família "gay" ou com a família de pais e mães solteiros. É preferível aquilo que é local e contingente ao que é universal. Em ciência, inclina-se para a incerteza e a dúvida. Ética e estética se mesclam, confundem. Os novos valores são locais e surgem em função não de uma objetividade, mas dos sentidos, do princípio de prazer. Nega-se o "penso, logo existo" de René Descartes (Discurso do Método, 1648) e abraça-se o "sinto, logo existo" de Daniel Goleman (Inteligência Emocional, 1996).


Enfim, os pós-modernos dizem que o sonho moderno de mudar o mundo por meio da liberdade burguesa ou do socialismo, morreu. O pensamento crítico desaparece, cede lugar ao pós-crítico que diz que o máximo que alguém pode mudar é sua existência. Então, instituições modernas como governos, tribunais, os próprios valores, perdem o valor. 

As ONGs são exemplo disso, pois são tentativas particulares de "mudar" uma nesga de realidade. No lugar dos valores ético/morais, surge o desvalor.

O que é educação?

Gerson N. L. Schulz




Como sou professor de profissão, muitos me pedem uma definição de educação. Por isso gostaria de dizer que, neste artigo, inicio a discussão sem a pretensão de encerrá-la.




Para Abbagnano (Dicionário de Filosofia, 2007), educação é a transmissão e o aprendizado das técnicas culturais, que são as técnicas de uso, produção e comportamento, mediante as quais um grupo de homens é capaz de satisfazer suas necessidades, proteger-se contra a hostilidade do ambiente físico e biológico e trabalhar em conjunto, de modo mais ou menos ordenado e pacífico. Abbagnano diz que ao conjunto dessas técnicas se chama cultura. Para ele, uma sociedade humana não pode sobreviver se sua cultura não é transmitida de geração para geração. As formas de realizar ou garantir essa transmissão chamam-se educação.



Para Boisaco (Dicionário de Pedagogia, 1950), a palavra cultura deriva da palavra grega Paidéia. Conforme diz Moacir Gadotti (História das Ideias Pedagógicas, 2005), com o advento do Império Romano esta palavra (Paidéia) tornou-se Humanitas. De Humanitas vem, em português, que é língua neolatina, a palavra educação, e também a palavra humanidade. A confusão existe quando se traduz Paidéia por educação.



A partir disso, posso inferir que educação não é cultura, é forma de transmissão desta para as gerações futuras. Assim, educar, no contexto das línguas neolatinas, é sinônimo de ensinar, mas também é ato de aprender dentro de um processo físico e intelectual. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, Título I, Artigo 1°, 1996), afirma que a educação "abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais." Por isso posso afirmar que a educação é um processo? Creio que sim, pois, na ótica que venho expondo, a cultura é seu fruto direto.



Se em uma relação antropológica, cultura significa sobrevivência, não existe indígena que não saiba caçar, ribeirinho que não aprenda pescar, criança urbana que não deva aprender a atravessar uma rua em segurança. A "forma" como os pais ensinam na tribo, na comunidade, na escola é educação.



Concordo com Gonçalves em "Um Olhar sobre a Educação" (2003) que entende educação dentro da concepção histórico-crítica como "fenômeno que se apresenta como comunicação entre pessoas livres em diferentes graus de maturação humana num contexto histórico determinado." E com Saviani em "Educação: do senso comum à consciência filosófica (1989)" que pensa que: "promover o homem significa libertá-lo de toda e qualquer forma de dominação; nas sociedades em que vigora o modo de produção capitalista, a dominação se manifesta concretamente como dominação de classe, então educar, isto é, promover o homem, significa libertá-lo da dominação de classe." Mas cabe aqui também dizer que alguns autores que trabalham com a concepção da luta de classes (Marx) não conseguem admitir que essa interpretação leva a sistemas despóticos, o socialismo e o comunismo. Sistemas que não mostraram até hoje exemplos que escapassem dessa perspectiva da ditadura do coletivo sobre o individual. Faltou aos países "socialistas" a própria dialética para perceber que a história não tem um fim com a chegada do socialismo ou de uma revolução, ela é sempre devir. A história é entrecortada, ela retorna, anda, pára, retrocede e avança.



Enfim, concluo que educação é promoção do homem para torná-lo cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação e intervir nela, transformando-a por meio da ampliação da sua liberdade. A partir disso, acredito que a educação deveria ser ato político (práxico) assumido, e não simples teoria.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O QUE É O NATAL?

Gerson N. L. Schulz



Todos os anos, para aqueles que acreditam no cristianismo, esta época é para se refletir sobre o ano que passou, sobre a vida, sobre o que se fez e para onde se quer pilotar a nau da existência, como afirma o filósofo Platão (428-347 a.C) no Fédon.

Claro que Platão não era cristão nem poderia ser, pois o cristianismo ainda não fora "inventado". Segundo o filósofo Giovanni Reale, em sua História da Filosofia (1991), Platão, apesar de ser um grande divulgador das capacidades racionais do homem (que os gregos chamavam 'Logos'), dava fundamental importância ao mito que para ele não era fantasia, mas expressão de fé e crença. Para Platão o mito é a fé racionalizada. O mito procura clarificação no Logos e o Logos busca complementação no mito, segundo Reale.


Ao analisar esta frase pode-se inferir que Platão reconhecia os limites da razão e também que, de fato, há coisas que ela não pode explicar. Por isso confiava ao mito esta capacidade, isto é, o mito é aquela explicação poética, impossível de ser comprovada, que às vezes foge completamente da realidade conhecida cogitando a existência de outra que não se pode ver.


Entretanto, no caso do natal, essa concepção não se aplica, pois o natal não se trata da gênese dos deuses gregos nem da escatologia, suposta, após a morte. O natal é uma data muito improvável reconhecida sua improbabilidade pela própria igreja que o criou, o cristianismo católico. Caso Cristo realmente existiu (é bom lembrar que a ciência história até hoje não confirma sua real existência, nem a autenticidade das narrativas contidas nos chamados evangelhos), dificilmente teria nascido em vinte e cinco de dezembro. Esta é uma data convencionada porque ninguém sabe ao certo se a personagem principal da festa realmente existiu, quanto mais sua natalidade.


O natal como se conhece hoje é uma invenção do mundo católico medieval. A bíblia também não confirma a identidade dos reis magos e nem que eram três. Provavelmente se Jesus nasceu ele não veio ao mundo em uma manjedoura como se diz, mas em uma estalagem à entrada de uma cidade como era comum na época.

Não é objetivo aqui discutir os pormenores desta história "mal contada" porque nela sobram lacunas para preencher, por sinal. Porém, nunca se teve a notícia depois dos relatos dos evangelhos sobre uma estrela que anda e pára como hipoteticamente era a que guiava os magos do Oriente, segundo Mateus. Algo assim não poderia ser uma estrela!




Para finalizar este texto crítico sobre o natal (que penso ser mais comércio que religião, mais trabalho/exploração dos comerciários que ficam nas lojas em pé, com fome, atendendo uma massa exigente, quando não mal educada, faminta pelos produtos da moda, ávida por cacarecos que estarão imprestáveis daqui a um ano), - e como  fazem sucesso aquelas bugigangas fabricadas por mão-de-obra escrava na Ásia - só resta dizer: é natal de novo "e o ano novo já vem…", como diz a canção...

AMOR OU PAIXÃO?

Gerson N. L. Schulz




Foi em um domingo à noite em que eu estava na orla da cidade de Macapá, próximo de um bar com música ao vivo, que presenciei uma cena triste: um casal de namorados brigando. Enquanto ela dava sapatadas nele, ele se defendia argumentando que não a tinha traído. A partir disso nada melhor do que refletir sobre o amor e a paixão. O que é amor? O que é paixão? Há diferença entre ambos?


Para a filosofia clássica, nascida do seio da Grécia antiga, era possível se cultivar o amor. Mas ele não era um ser vivo, embora pudesse morrer. E, conquanto, se possa morrer de amor, como em "Romeu e Julieta", ainda assim o amor é entidade metafísica. A paixão, não obstante seja manifesta, também é.

A herança grega nos deu cinco tipos de amor. O amor ágape, um tipo de amor que ficou mais conhecido com o advento do cristianismo por ser o amor que o deus judaico-cristão sentiu pela humanidade, criando-a; por pura gratuidade já que Ele é perfeito e não precisaria da humanidade para nada. Os outros tipos são bem mais humanos. Em segundo tem-se o amor filia, aquele que pais e filhos sentem mutuamente, designa também o amor entre amigos. Em terceiro há o amor eros, aquele amor que desperta a paixão, é o amor que aproxima dois seres, desencadeando uma série de sensações agradáveis. Mas este não é passageiro como a paixão.

Platão
Em quarto e quinto estão o amor platônico e o amor pornéia. O amor platônico (em filosofia) não é o mesmo que no senso-comum. Ele significa amor ao belo, às formas, é amor do intelecto. É amor que não usa os sentidos. É por isso que no senso-comum se diz que é o amor em que os amados nunca se tocam.

Há ainda o amor pornéia, de onde deriva pornografia. O pornô é aquele amor que não tem compromisso algum. É o sexo feito com a garota ou garoto de programa. Onde o que importa é a relação sexual para satisfação imediata.

Quanto à paixão, é Aristóteles (384-322 a.C.) quem trabalha melhor esse conceito evidenciando que ela é pathos (de patológico). A paixão é algo que subtrai a razão. Domina a ação. Por isso alguns crimes se dizem passionais, em função de que o indivíduo sofre a ação de seus próprios instintos e estes dominam sua vontade que perde a liberdade.

Por fim, a paixão se diferencia do amor na medida em que é puramente carnal, irracional, não é ato de uma vontade livre, é fruto do desejo (embora para a justiça isso não retire a responsabilidade). O conceito amor envolve também noções de moral, ética, preservação, fidelidade (não necessariamente conjugal). A capacidade de amar parece constituir parte do intelecto humano, pois mulheres e homens amam-se a si mesmos mas não se apaixonam por si mesmos. Então a paixão constitui-se em pathos, algo anormal que pode se confundir com o amor. Porém, é claro, nem sempre ela é negativa, às vezes ela causa bem estar, ainda que momentâneo. Já o amor está ligado à ideia de continuidade na relação, de querer estar junto, de transcendência do sexo.

CONHECER É PODER?

Gerson N. L. Schulz




Representação do
Filósofo Pitágoras
Nascido por volta de 500 a.C na cidade de Metaponto (ao sul do que hoje é a Itália), Hipaso de Metaponto era membro da escola dos Pitagóricos. O filósofo Pitágoras era de Samos e em 530 a.C vivia o apogeu de sua vida pública como o chefe da Escola dos Pitagóricos. Suas doutrinas elementares afirmavam que os números eram o princípio de toda ordem no universo, consequentemente, o universo havia sido criado por uma entidade racional. Para Pitágoras a música (na qual ele determinou as relações harmônicas de oitava, quinta e quarta), era a linguagem matemática universal.


Além disso, como todos os elementos da natureza podiam ser associados às figuras geométricas, acreditava que a natureza era constituída por números, mas não simplesmente pelos numerais como conhecemos hoje (abstratos) e sim, para Pitágoras, os números eram entidade reais, materiais e racionais. E era por meio dessa racionalidade que o universo era mantido.

O problema surgiu quando o discípulos Hipaso de Metaponto, trabalhando sobre as relações métricas no triângulo retângulo, pôs em dúvida a ideia de que todos os números eram racionais. Partindo da descoberta de seu mestre de que, em um triângulo retângulo qualquer, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos, Hipaso se perguntou: e se os lados do triângulo retângulo medirem 1? O que acontece? Realizando o cálculo ele descobriu que a hipotenusa teria o valor da raiz quadrada de 2. E isso era gravíssimo, ou ele tinha errado os cálculos ou nem todos os números do universo eram racionais. Ele estava certo, tanto que Pitágoras o proibiu de contar a quem quer que fosse esse segredo, pois Pitágoras acreditava que se alguém soubesse da existência de números irracionais, o mundo e toda a humanidade seriam destruídos.

Mas Hipaso não só contou a outras pessoas, como escreveu um livro sobre o assunto. O fato é que, até hoje, sua morte, logo após a publicação do livro, permanece mistério. Ao que se sabe ele se afogou ao atravessar, juntamente com outros companheiros, um rio. Mas a história mais comum é de que ele foi afogado como punição por ter revelado o segredo dos números irracionais.

Refletindo-se a infeliz história de Hipaso de Metaponto, pode-se concluir que nem sempre conhecer é poder. Lamentavelmente, quando o conhecimento abala a fé das pessoas, suas crenças ou quando é manipulado ou falsificado, ele não liberta ninguém e pode até causar a morte. E quem paga por isso é o cientista que é, por vezes, perseguido porque suas descobertas chocam os paradigmas conservadores que determinada sociedade costuma propagar como sua "verdade". Assim como Hipaso foi assassinado, assim também na idade Média os cientistas eram queimados pela inquisição católica, na Modernidade (como foi por anos o caso de Charles Darwin, Pasteur, Tesla e outros tantos), eram vítimas de chacotas ou morriam na miséria sem ter o que comer.

Concluindo, e na Pós-modernidade, o cientista e o filósofo recebem o destaque que merecem ou se continua pensando que eles e suas idéias não passam de histórias? Pode ser que nem sempre conhecer seja poder, mas na maioria dos casos o conhecimento mudou a história da humanidade para sempre.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

OS QUATRO PERÍODOS HISTÓRICOS DA FILOSOFIA


Gerson N. L. Schulz

Professor do Ensino
Público Federal no Brasil







A Filosofia como ciência (aqui cabe a palavra ciência se se entende como episteme, donde vem a palavra epistemologia que significa conhecimento em grego), nasceu na Grécia com Tales de Mileto (séc. VII a.C.).

Como ela tratava dos saberes e, principalmente, do acúmulo destes, ela foi considerada a "mãe" de todas as ciências. Entendendo-se ciência como aquilo que tem conteúdo, método e objeto de estudo, então a Filosofia é uma ciência. Dela derivaram ao longo do tempo todas as demais ciências particulares como a Matemática, a Biologia, a Antropologia, a História, a Psicologia, et caterva.

Destarte, o filósofo (no mundo antigo) possuía o status que hoje é dado ao cientista. E por isso o filósofo procurava a verdade por meio do uso da razão. Em função das diversas opiniões sobre a natureza da verdade, surgiram diversas escolas filosóficas. Grande parte delas privilegiou o estudo da Matemática, como foi o caso das escolas pitagórica, donde vem a sistematização do famoso teorema (530 a.C.), e também da Academia, conduzida pelo filósofo Platão (427 a.C. - 347 a.C.).

Logo, a preocupação dos filósofos no mundo antigo era "desmitologizar" o mito e os deuses, e desvelar o Cosmos investigando se ele continha regras, ordenamentos e, por conseguinte, que ordenamentos eram esses. Em outras palavras, a Filosofia surge para substituir as crenças religiosas da época por uma racionalização da natureza. Para a Filosofia, a verdade estava naquilo que se podia demonstrar, pelo menos, formalmente, isto é, por meio da lógica, da linguagem (discurso) e da Matemática.

A partir do ano de 486 d.C há uma mudança nas formas do pensamento e também um grande fenômeno social e político que produz um "divisor de águas" (a queda do Império Romano do Ocidente) na história e surge, a partir daí, a Idade Média.

No mundo medieval o conhecimento que tinha supremacia sobre os demais era aquele adquirido por meio da fé cristã. Mesmo no mundo natural, aquilo que não se mostrasse em convergência com a fé era desclassificado como verdade. Então, ao contrário do mundo antigo em que a razão prevalecia como método para estabelecer a verdade, no mundo do medievo, a verdade era um discurso que não podia ser provado pela Lógica nem pela Matemática, mas pela fé. De tal forma, qualquer ponto de vista para se tornar verdadeiro, deveria, explicitamente, estar de acordo com as verdades da Bíblia (as chamadas 'verdades reveladas'). Considerava-se, assim, que os textos bíblicos eram em si mesmos a verdade e por isso o homem não deveria perguntar para a natureza, para o universo se neles havia alguma lei (como as que hoje sabe-se que há, de acordo com a Física), mas o que se entendia sobre a natureza era justamente, para merecer o título de "verdade", aquilo que o texto bíblico dizia ser ou insinuava ser.

Nesse momento da história da humanidade, à Filosofia coube o papel de ser "escrava" da Teologia, pois ela apenas servia para ordenar logicamente e tornar convincente o discurso produzido pela religião cristã (ou pela religião árabe, em se tratando do mundo oriental).

Na Modernidade (que surge a partir de 1453 com a invenção da imprensa por Gutenberg, das descobertas astronômicas de Galileu e geográficas de Colombo - explorador das Américas, em 1492), a igreja católica e a filosofia cristã entardecem. Agora, algo para ser chamado de "verdade" deveria ser demonstrado por meio da Matemática e das leis da Física.

René Descartes (1596-1650) foi o idealizador das ciências modernas. Ele tentou matematizar até mesmo a própria Filosofia para livrá-la das meras "opiniões" divergentes entre os vários filósofos e transformá-la em uma Ciência (aqui nos moldes modernos, projeto no qual ele fracassou). A prova de fogo que qualquer tipo de conhecimento deveria enfrentar a partir desse momento para merecer o título de ciência, era o método científico. Caso um tipo de saber não fosse aprovado pelo crivo do método científico (que se esforça para comprovar aquilo que afirma), não poderia ser chamado de conhecimento científico. A partir do mundo moderno a humanidade adota o modelo de pensamento de "causa e efeito", o que significa que, diferentemente do pensamento religioso (cujo imaginário acredita que há no universo um "ser supremo" que comanda o mundo físico e à humanidade cabe aceitar essas determinações da divindade), o pensamento científico (que trabalha com a ideia de consequência) só aceita aquilo que tem explicação causal como, por exemplo, o fato de a combinação de ácido sulfúrico (H2SO4) + hidróxido de sódio (NaOH) resultar em água (H2O) + cloreto de sódio (NaCl) + gás hidrogênio (H2). Para a ciência em fenômenos como este acima não há a presença de nenhum "deus". É, isto sim, impossível, de acordo com a configuração atômica destes componentes sua combinação resultar em outros produtos. Assim, o cientista não acredita que dentro do balão de vidro estejam água e sal de cozinha porque "deus" quis, mas porque há uma lei da química que garante o acontecimento dessa reação nas condições normais de temperatura e pressão (CNTP), bem como em qualquer lugar do universo, justamente porque a lei tem validade universal.

Foi esse modelo de pensamento que culminou no projeto moderno do Iluminismo. Período moderno de grande progresso técnico-científico. O Iluminismo estabelecia uma sociedade voltada para a ciências, para a exploração da natureza, para seu desvelamento, para a conquista do conforto da humanidade (ainda que das pessoas que viviam na Europa). Era também, em termos políticos, de cunho liberal e capitalista no campo econômico. Sua filosofia progressista apostava na soberania do indivíduo sobre a sociedade e por isso, prezava pela garantia das liberdades políticas (mas apenas dos europeus e não dos povos colonizados, considerados inferiores). Pelo empreendedorismo e pela meritocracia.

Esse modelo filosófico exigia o fim do regime monárquico, especialmente na França (uma das nações europeias mais desenvolvidas) e foi o que a nova classe social francesa fez em 1789, organizando uma Revolução. Essa nova classe Marx (1818-1883) chamou de burguesia. A burguesia, sob o regime monárquico, detinha o poder econômico uma vez que era proprietária das indústrias e das grandes casas de comércio e empresas marítimas que escoavam sua produção, mas não detinha o poder político que estava nas mãos dos reis que determinavam os valores dos impostos, quando e com quem os burgueses poderiam comerciar.

Durante os acontecimentos revolucionários era interesse da burguesia derrotar a monarquia, pois na República acabava a desigualdade entre os homens devido ao nascimento (uma vez que uns homens nasciam nobres e outros plebeus) o que, por princípio, torna as pessoas desiguais perante as leis. Apesar da promessa de igualdade que justificava a Revolução, nos acontecimentos posteriores, frente ao desejo do povo francês pobre em realizar uma transformação radical na sociedade francesa que se assemelhava a um tipo de "socialismo", os burgueses, temendo perder seus bens para o coletivo, "traíram" seus preceitos liberais e optaram por financiar o imperialismo bonapartista. Mas mesmo assim, a experiência na França se espalhou para outros países da Europa e, pouco a pouco, as Monarquias europeias ou desapareceram ou se tornaram parlamentaristas. O ano de 1789 os historiadores consideram chamar de marco divisor entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea que vem até os dias atuais.

Embora não seja consenso, chega-se - a partir de 1945 - ao que se denomina Pós-modernidade. Para os defensores desse conceito que entende, entre outras coisas, que o projeto da Idade Contemporânea (que é eminentemente herdeiro da Modernidade) se esgotou, a Pós-Modernidade é diferente de todos os outros períodos históricos que já existiram.

David Harvey é um dos pensadores que diz que a Pós-modernidade é resultado da II Guerra Mundial. Para ele esse grande conflito pôs em xeque todo o projeto moderno porque a tão sonhada racionalidade científica (que os iluministas apregoavam que salvaria a humanidade da ignorância) produziu a quase total destruição da Europa (com a Guerra e também uma arma até então nunca vista sob a face da Terra, a bomba atômica que pode destruir toda a raça humana). Esse conflito mostrou, assim, que a "era nuclear", prestava-se para fins bélicos e de destruição total do Planeta Terra.

É aqui que os "pós-modernos" perguntam: "como a mesma ciência que produziu a penicilina, aumentou as expectativas de vida, o conforto tecnológico desde os tempos de Descartes pôde produzir, também, tanta capacidade de destruição por meio das guerras cada vez mais atrozes e uma arma tão letal como a bomba atômica ou a bomba de hidrogênio que, se os países que as detêm entrarem em conflito, toda a raça humana (mesmo nos países não envolvidos diretamente na situação) serão completamente aniquilados?"

Essa pergunta pôs em crise a "promessa" das ciências modernas. Os cientistas e filósofos começaram a indagar sobre a validade das "verdades" científicas e se essas "verdades" fizeram mais bem ou mais mal para a raça humana em geral. É a partir daí, então, que se tem a Pós-modernidade. Tempo histórico em que se valoriza a pluralidade de saberes (onde o saber científico, de forma geral, é apenas mais um saber em meio a tantos outros). Onde uma parcela das pessoas se preocupa com o esgotamento da natureza e de seus recursos, com os direitos dos animais (então tratados pela Modernidade, por exemplo, como seres que não merecem outro status, além do de escravos), com os direitos das chamadas minorias (comunidades indígenas, quilombolas, homoafetivos - masculinos e femininos -, direitos iguais para os gêneros masculino e feminino, direitos humanos e outros).

A Pós-Modernidade é, então, a era da alta tecnologia (robótica e inteligência artificial, exploração interplanetária). Mas também é uma era de conflitos étnicos acentuados, de guerras não mais entre Estados-Nações, mas entre Estados-Nações e grupos armados (denominados terroristas).

Por fim, a era "Pós-Moderna" é conhecida como a "era das incertezas" e do relativismo científico, cultural, político, econômico. Uma era em que os valores modernos (a filosofia, a ética e a religião) se esgotam ou são abandonados ou, por outro lado, são radicalmente transformados em seitas e denominações particulares. Muda-se bastante a relação entre o homem e a divindade. Onde antes "deus" era um ente comunitário (pois desde o surgimento do cristianismo só havia sentido em se falar de igreja enquanto "eclésia" - reunião de pessoas para conviver e partilhar os problemas existenciais, a comida e a bebida, a casa, onde o cristão aprendia a dividir os poucos recursos que possuía com seu semelhante); agora "deus" é tido como algo pessoal (caso das igrejas neo-pentecostais onde a relação com "ele" é direta, sem intermédio do padre que, no mundo medieval era a única pessoa capaz de interpretar o sentido dos textos "sagrados" para as pessoas comuns. Na Pós-Modernidade a figura do líder ainda existe, mas o pastor é um tipo de animador de plateia. O cristianismo se descentraliza cada vez mais e as igrejas cristãs distorcem (ao gosto de seus fundadores) o cristianismo. A relação com "deus" segue os moldes comerciais de pagamento de determinada quantia em troca do recebimento de favores de "deus" aqui e agora.

A Pós-Modernidade é também o lugar onde o "outro" se torna um estranho porque ele pode ferir "meus interesses" (querer me roubar, me matar, ferir meus sentimentos). É o momento da desconfiança em geral nas explicações generalistas sobre a sociedade, sobre o mundo, sobre o futuro. É a era em que o futuro não tem tanta importância porque "a longo prazo todos estaremos mortos" (frase atribuída ao economista John M. Keynes - 1883-1946) , o que implica o exercimento do gozo da vida por meio dos sentidos (estética) que devem ser explorados ao máximo, seja por meio de catarses como drogas (lícitas ou não), sexo com o maior número de parceiros possível ou, simplesmente, a adoção de estilos de vida suicidas como o famoso "vida loka".

QUID VERITAS?

Gerson N. L. Schulz



Representação de Pôncio Pilatos.
O título acima significa: o que é a verdade? Essa teria sido a frase da personagem Pôncio Pilatos ao interrogar, ironicamente, a personagem Jesus, no evangelho. E ele tinha razão ao perguntar isso, pois não há apenas uma noção de verdade, mas, no mínimo cinco.


Em dois mil e setecentos anos de história da Filosofia, os filósofos não chegaram ao consenso para estabelecer regras absolutas para a verdade. Assim, conforme Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), em sua Metafísica, se tem a) A verdade como correspondência: em que se afirma que a coisa é azul porque é azul e não porque, discursivamente, se diz que é. Isto é, se alguém diz que a camisa é azul, a verdade está na coisa como correspondência da palavra. Se a camisa não for azul, quem disse que era, mentiu. Já para os empiristas do séc. XVIII, tem-se b) A verdade como revelação: no sentido empirista é verdade aquilo que se revela ao homem (fenômeno, sensação). Por exemplo: pode-se afirmar que o açúcar é doce pelo paladar. E no sentido teológico a verdade se dá em ocasiões privilegiadas: profecias, premonições.

Por outro lado, conforme Immanuel Kant (1724-1804), tem-se c) A verdade como conformidade com a regra ou conceito: em que é verdade uma lei, uma regra previamente estabelecida, não cabendo a ninguém discutir a regra, mas apenas interpretá-la e aplicá-la às mais diversas situações, é o caso do Direito. Em quarto lugar, de acordo com o idealismo do séc. XIX, tem-se d) A verdade como coerência: em que se considera a existência de uma verdade "absoluta" (ideal, perfeita) e se comparam as verdades temporais com essa noção idealista da verdade, observando-se o grau de imperfeição da verdade imediata com a suposta verdade absoluta. Por exemplo: um homem é condenado à prisão por haver muitas evidências de que ele é culpado de um crime, mas não há uma filmagem, testemunhas, nem confissão; então, o Júri, condena essa pessoa considerando as evidências (as partes), mas sem certeza absoluta e incontestável de que ela realmente é criminosa, ou seja, a condenação acontece a partir da "meia verdade".

Em quinto lugar, como afirmam os pragmatistas norte-americanos do séc. XX, há e) A possibilidade da verdade apenas enquanto instrumento: ou seja, algo é verdadeiro enquanto tem validade para determinado fim. É o caso de um Estado teocrático como o Irã onde, para que o governo se mantenha no poder, diz que é da vontade de Maomé que os aiatolás estejam no poder. No dia em que o Irã tornar-se um Estado democrático, provavelmente essa verdade deixe de ter valor e seja rejeitada.

Portanto, percebe-se que a idéia de verdade não é consensual. Mas pelo menos se tem a pista de que, em todos os casos, a verdade deve permitir sua comprovação. Ficam, portanto, excluídas para a vida prática a possibilidade da verdade teológica e da verdade idealista. No primeiro caso porque é inatingível: como saber se uma profecia se realizará (futuro) sem vivê-la? Caso você a tenha vivido não é mais profecia, pois já aconteceu. No segundo, como comprovar a existência de uma verdade absoluta e ideal sem demonstrá-la? Daí proponho a seguinte fórmula: "não se deve cometer injustiças mediado por preconceitos."

UMA PERSPECTIVA FILOSÓFICA DO SUICÍDIO

Gerson N. L. Schulz




De acordo com o sociólogo Émile Dürkheim (1855-1917) há três tipos de suicídio: o altruísta, onde uma pessoa atenta contra a própria vida por motivo vergonhoso. Pode-se lembrar um cônjuge traído que, para evitar a vergonha ou a ironia pública, se mata. O segundo é o suicídio egoísta em que alguém se mata por motivos racionalizados e não desesperados: pode-se citar o caso do presidente Vargas que "saiu da vida para entrar para a história".

Em terceiro lugar há o suicídio anômico (a = não e nomos = lei). Esse ocorre quando há o caos. Em grandes crises econômicas, religiosas, políticas e etc. Assim, quando o grupo ao qual o indivíduo pertence perdeu toda dignidade, a pessoa pode decidir se matar em função da falta de referências. Isso ocorre quando um país é invadido por outro e toda a população perde seus valores e fica a mercê dos costumes e leis dos invasores.

No estado do Amapá, de acordo com o Ministério da Saúde, o suicídio ocorre em maior número do que no resto do Brasil. Os principais motivos são: a traição conjugal e o endividamento. O meio preferido de auto-execução é o enforcamento. Por se ter altos índices de suicídio, pergunta-se: não é uma questão de saúde pública?


Ao submeter-se essa questão particular ao tribunal da razão, como indica Immanuel Kant (1724-1804), filosoficamente pensa-se que os "traídos" que, por vergonha e com medo da troça popular acabam com a própria vida dão razão àqueles que os denigrem. Da mesma forma o endividamento também não é motivo racional para o suicídio porque, caso fosse, o capitalismo não existiria.

Busto atribuído a Epicuro
 (341 a.C. - 270 a.C.).
Talvez a única forma justificável de suicídio seja o caso de uma doença incurável ou cujo tratamento seja caro e não se possa arcar. Seria o segundo tipo de suicídio classificado por Dürkheim de "tipo egoísta". Nesse caso, quem comete suicídio quer evitar a dor. É o pressuposto da filosofia de Epicuro (341-270 a.C.): evitar a dor e obter o prazer; embora Epicuro não encorajasse o suicídio.

Entre os romanos antigos o suicídio era uma punição, pode-se citar o caso de Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), mestre de Nero (37 d.C.-68 d.C.), que foi condenado ao suicídio após tecer críticas ao poderoso imperador.

A pergunta é: o suicídio é o melhor caminho para se resolver um problema? Em lógica não, pois não tem validade a resolução de um problema simplesmente eliminando-o. É a mesma coisa no suicídio, o suicida tenta eliminar a própria vida para eliminar seus problemas! Guiar-se pela situação desesperadora que pode ser temporária e que embaça o pensamento, e não pela razão, também não pode ser critério racional de decisão.


Immanuel Kant.
Mas a vida cotidiana não é tão simples e o imperativo categórico kantiano (age de tal forma que tua ação possa ser norma universal) não é aplicável sem gerar, em muitas ocasiões, graves conflitos com os sentimentos de quem vivencia determinada situação limite.
Longe de ser "moralista", essa análise é limitada à razão e não alcança os pés da vida diária. Só pode, certamente, saber o que é a dor quem a sente. E é pela análise particular das situações de cada indivíduo que Nietzsche (1844-1900) parte para a defesa da eutanásia em pleno século XIX como opção e amostra da liberdade/autonomia de um indivíduo. Para ele o suicídio deve ser direito do homem; e seria, além disso, uma libertação das (na visão nietzscheana) falsas crenças do cristianismo, da negação do conceito de pecado original e da ideia de redenção. Então a eutanásia seria um direito e o indivíduo deveria lutar por ele como no filme "Mar adentro" onde o marinheiro Ramón Sampedro, após perder na justiça esta autorização, pede aos amigos para ser envenenado. 

"Mar adentro"
de Alejandro Amenábar,
é a história do 

marinheiro espanhol
Ramón Sampedro
e sua luta pelo 

direito de morrer.
(20th Century Fox - 2004)
Por fim, o autor desse artigo não tem como analisar cada caso pessoal de dor das pessoas, muito menos não é o objetivo 'julgar' o suicida. O objetivo aqui é levantar perguntas sobre a parcela de responsabilidade pública no ato do suicídio.
Não é o suicídio um problema social? Qual é o papel da Filosofia e dos filósofos sobre essa realidade? Segundo Henry David Thoreau "ser filósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola [...] É resolver alguns dos problemas da vida, não na teoria, mas na prática." E vale a frase de Epicuro? "Quanto às doenças da mente, a Filosofia lhes ofereceu remédios; sendo, nesse aspecto, justamente considerada a medicina da mente."
Caso essas assertivas se confirmem, defende-se aqui que caberia aos filósofos, sem julgamentos morais ou intenções de auto-ajuda, auxiliar a sociedade e um suicida em potencial a esclarecer melhor os fatos antes de tomar a decisão derradeira.

domingo, 8 de novembro de 2009

Cotas raciais ou cotas sociais?

Gerson N. L. Schulz



O debate está acirrado entre os que advogam em favor das cotas raciais e aqueles que propõem as cotas sociais. No primeiro caso a proposta é permitir certas vantagens em concursos públicos e benefícios sociais para pessoas com a "cor" da pele não-branca. Isso a fim de corrigir o erro da escravidão de outrora. Caso a Lei vingue, empresas particulares também deverão ter certo percentual de funcionários "negros" em seus quadros. Pôs-se a palavra entre aspas por não se compartilhar dessa segregação adjetiva de cores entre pessoas.


O projeto põe em discussão a idéia de "raça", atualmente abandonada pela antropologia. Hoje se prefere o termo "etnia". É inegável que houve a escravidão impetrada contra "negros" e "indígenas" no passado e que essa era extremamente injusta. Mas será justo, hoje, classificar as pessoas com uma espécie de rótulo racial?

O problema que alguns sociólogos como Demétrio Magnoli vêem nisso é que há brancos pobres que poderão ser excluídos do sistema de benefícios sociais por causa da cor da pele. Bem como dos empregados de empresas privadas se os governos oferecerem isenção de impostos para quem contratar pessoas não-brancas. Na atual Espanha os ciganos, ao "ganharem" direitos iguais ao dos cidadãos "natos" – espanhóis – começaram a ter acesso às vagas nas escolas públicas e aos direitos trabalhistas iguais. Em contrapartida, os espanhóis natos começaram a reclamar que estavam perdendo os empregos e as vagas nas escolas para os "não-espanhóis": os ciganos. Isso aumentou os conflitos sociais na Espanha. Os dados são de uma pesquisa de doutorado realizada lá em 2003 pela Dr. Márcia Ondina da Universidade Federal de Pelotas, RS.

E aqui: será que surgirá um "ódio" contra pessoas não-brancas se as cotas raciais forem implantadas? Será que aumentarão os adeptos de grupos neonazistas da Baixada Santista em São Paulo, em Santa Catarina ou em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul? Difícil prever, possivelmente não. O brasileiro não costuma se identificar por "raça". Mas as contradições sociais poderão aumentar se se beneficiar apenas um grupo e pelo pior critério (um critério nazista), a cor da pele. Não estariam as cotas raciais dando argumentos reais para neonazistas?

Outra coisa que se esquecem os que propõem as cotas raciais são os casos dos pobres brancos. Eles não podem ser penalizados pela cor da pele. Já não há empregos para todos, como se sentirá um "branco" que perder o emprego para um "não-branco" porque a empresa onde trabalhava receberá mais incentivos fiscais pelo maior número de "não-brancos" empregados?

Sendo assim, por que não as "cotas sociais", como já ocorre em algumas universidades federais? Por que a universidade não pode valorizar as pessoas pobres (brancos ou não) que afluem das escolas públicas para seus quadros ao invés de beneficiá-las pela cor da pele, o que não passa de uma segregação, de qualquer forma, pois classificar alguém por "raça" é "apartheid".

Por fim, sinceramente, você se imagina chegar ao guichê de uma Cia. aérea com sua carteira racial em punho (assim era na Alemanha de Hitler) e perguntar ao funcionário: "– Por favor, ainda há cota de lugar para "negros" nesse vôo?"

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NIETZSCHE: FILÓSOFO DO NAZISMO?

Gerson N. L. Schulz


Friedrich Nietzsche
No dia 25 de agosto passado se completaram 109 anos da morte do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Não é possível num pequeno artigo dizer tudo o que Nietzsche representa para a filosofia, mas como em primeiro de setembro aniversaria também a II Guerra Mundial, gostaria de refletir sobre a pseudo-influência nietzschiana sobre o nazismo. Nietzsche não era anti-semita. Este termo, definido para designar a hostilidade contra os judeus em 1879, baseia-se na teoria que considera a raça ariana superior, tanto fisicamente como pelo caráter e pela inteligência. Nietzsche falava em "homem superior", não necessariamente o homem branco, europeu e etc.

Em 1883-4 a Europa foi tomada novamente pela onda anti-semita. Período em que Elisabeth Nietzsche (irmã do filósofo) conhece Bernhard Förster, anti-semita convicto, e se torna sua noiva. Discordando das idéias do cunhado, em 2/04 de 1884, Nietzsche rompe com a irmã quando ela anuncia seu casamento e também adere ao anti-semitismo. No mesmo ano, Nietzsche afasta-se de seu editor, Schemeitzner, acusando-o também de anti-semita. Ao iniciar 1886, Elisabeth e Bernhard partem para o Paraguai para fundar sua colônia Teutônica que faliu em 1889 (ano em que nasce Hitler na Áustria). Após a morte de Nietzsche, a irmã (já viúva) funda o Nietzsche-Archiv em Naumburg e, a partir daí, assume o controle dos escritos nietzschianos.

Bandeira com a cruz suástica gamada
tendo à frente o símbolo de proibido

RACISMO É CRIME
Em 1921 quando Adolf Hitler assume a presidência do Nationalsozialistichen Deutschen Arbeiterpartei (Partido Nazista), o anti-semitismo ressurge com força total em suas idéias 'salvacionistas'. Hitler, após ter sido servente de pedreiro, candidato a aluno de artes e cabo do exército na I Guerra, tenta em 1923, um golpe de Estado (Putsch da cervejaria) que o condena à prisão. Lá redige Mein Kampf com as bases do nazismo. Hitler acusava os judeus de terem traído a Alemanha na I Guerra e de serem os responsáveis pela miséria alemã porque muitos controlavam grandes bancos e fábricas. Em 1929, com o aumento da crise mundial devido à quebra da Bolsa de valores, os nazistas ganham apoio popular. E em 1932, Hitler se elege deputado. Mas é em 1933 que Von Hindenburg (presidente da República) nomeia Hitler chanceler. Feito isto, Hitler funde os cargos de presidente e primeiro ministro e torna-se o Führer (condutor) da Alemanha. Inicia-se o nazismo que culmina derrotado em fins de abril de 1945.


Elisabeth Nietzsche
1846-1935
Mas, enfim, porque associam Nietzsche ao nazismo? Porque sua irmã viveu sob o regime hitlerista efetuando, de posse dos arquivos Nietzsche, grotescas modificações nos escritos do irmão para agradar aos nazistas e tornar Nietzsche popular. Ela, inclusive, presenteou Hitler com a bengala do filósofo. Foi assim, por exemplo, que a idéia de Übermench (mal traduzida como super-homem) foi tida como sinônima de 'super-homem-alemão-soldado-nazista'. Nietzsche nunca afirmou isso. Para ele, inclusive, os alemães eram a pior espécie da Europa. A idéia de além-do-homem significa a auto-superação e o repúdio à hipocrisia da cultura judaico-cristã europeizada.